“Férias”. A simples pronúncia dessa palavrinha exige dos músculos faciais um ligeiro movimento algo parecido com o ensaio de um sorriso, o que é alegórico dos benefícios que os períodos sabáticos potencialmente nos trazem. Afinal, pesquisas indicam que quem pode e se permite esses momentos de descanso tem ganhos em saúde e bem-estar e, por consequência, um cotidiano mais satisfeito e sorridente. Aliás, nem precisa daqueles 30 dias longe do ambiente de trabalho que, anualmente, são garantidos pelos direitos trabalhistas no Brasil. Ainda que dê para falar com um semblante mais sisudo, feriado, recesso e folga também constituem importante barreira para o desenvolvimento de transtornos e, além do mais, contribuem para a manutenção da produtividade.
“É muito claro que as férias são muito importantes para manter nosso equilíbrio físico e emocional. Isso, obviamente, não quer dizer que ela vá resolver todos nossos problemas”, aponta o psiquiatra Renato Araújo, lembrando que o intervalo em relação à rotina profissional é benéfica, entre outras razões, por interromper o estresse laboral, que, quando contínuo, nos deixa mais suscetíveis a distúrbios, principalmente psiquiátricos, mas também físicos.
Corrobora para as análises do especialista o estudo “Holiday Health Experiment”, de 2013. Realizada por um instituto do Reino Unido, a pesquisa observou dois grupos distintos, sendo que um deles realizou uma viagem em férias e o outro permaneceu trabalhando. A conclusão é que a capacidade de se recuperar do estresse aumentou, em média, 29% entre os que gozaram de descanso e teve queda de 71% entre os que seguiram executando as demandas de seus empregos. Além disso, observou-se que a pressão arterial, que quando alta está associada a um maior risco de infarto, caiu em 6% entre as pessoas que viajaram e aumentou em 2% entre as que não viajaram. Há ainda outras constatações sobre os impactos positivos das férias, como relatos de melhoria do humor, da qualidade do sono e da capacidade de concentração.
Em tempos de pandemia, que inspira cuidado e motiva novos procolos sociais, ficar em casa tem sido a alternativa mais indicada por autoridades de saúde. Para o psiquiatra, o mais importante é criar uma rotina de distanciamento das tarefas e do ambiente laboral nesse tempo, buscando compor uma atmosfera condizente com o descanso desejado. E mesmo que seja frustrante para alguns ficar, em alguns casos, 30 dias em casa, é crucial lembrar que a situação está além do nosso controle.
Recarregando as energias. Autora do livro “Dá um Tempo! Como Encontrar Limite em um Mundo Sem Limites”, resultado de quatro anos de pesquisa sobre as implicações para a saúde mental das cobranças excessivas e insustentáveis por produtividade, a jornalista Izabella Camargo acrescenta que saber desacelerar é essencial até mesmo para conseguir manter a qualidade do nosso trabalho. “É como querer viajar ou dirigir pela cidade sem parar nos sinais vermelhos dos semáforos ou diante das placas de trânsito. É um grande equívoco quando não se acredita na importância da pausa”, pontua.
Neste sentido, as férias seriam como parar em um posto de combustível para reabastecer. “Há quem prefira ignorar os sinais de alerta, como aqueles emitidos pelos carros. É um erro. Uma hora nosso corpo para e, então, vamos ficar no meio do caminho, sem chegar ao destino pretendido”, compara. Ela própria já passou por isso. Izabella foi diagnosticada, em 2017, com a síndrome de burnout – um transtorno ocupacional ligado à exaustão física e mental e com desdobramentos em sintomas diversos no organismo. Sintomas já vinham aparecendo desde 2014. A jornalista tratava separadamente 26 manifestações físicas que, embora não imaginasse, estavam todas relacionadas ao distúrbio.
Vale registrar: pelo menos 33 milhões de brasileiros tendem a se reconhecer na história dela. É o que sugerem dados de uma pesquisa de 2018 da Associação Internacional de Gestão do Estresse (International Stress Management Association – Isma), que apontam que 32% dos trabalhadores brasileiros sofrem com o transtorno. Pior: um inquérito anterior, de 2013, realizado pelo Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística (Ibope) apontava que 98% dos brasileiros se sentiam um pouco ou muito cansados. Desse montante, 68% se classificavam como exaustos.
Preparação ajuda a evitar estresse por causa de mudança abrupta de rotina
A decisão de declinar das férias, para além das necessidades financeiras, pode ser explicada, em parte, por um fenômeno um tanto curioso. Ocorre que o medo de gozar desse necessário período de descanso tem crescido no país. Segundo dados da International Stress Management Association-Brasil (Isma-BR), 38% dos profissionais de 25 a 55 anos admitem ter medo de dar uma pausa muito grande no trabalho e tirar aqueles 30 dias sabáticos garantidos aos trabalhadores celetistas após um ano da contratação.
“Eu já vivi momentos de estresse por ter entrado em férias. Hoje, comparo com aquela sensação de, depois de tirar o gesso de uma perna quebrada, sentir falta daquilo”, brinca Izabella Camargo. Renato Araújo, por sua vez, explica que esse é um fenômeno comum. “Nosso corpo encara essa mudança de rotina como um estresse. Então, se você vem em um ritmo de trabalho elevado e de repente você para, isso gera um estranhamento, há uma mudança da homeostase (condição de relativa estabilidade da qual o organismo necessita para realizar suas funções adequadamente para o equilíbrio do corpo)”, explica, citando que o estresse age enfraquecendo o sistema imunológico e, por isso, é habitual o relato de pessoas que têm uma virose justamente nessa época.
Uma forma de reduzir os impactos dessa reação do corpo, diz o psiquiatra, é planejar esse tempo de descanso. Outra questão fundamental nos tempos atuais é exercitar uma reflexão sobre qual relação teremos com os meios de comunicação, principalmente os smartphones, quando em férias. “Hoje, o celular é um instrumento de trabalho para boa parte da população. Se viajo com ele, estou levando o trabalho comigo. Ao mesmo tempo, é difícil sair deixando o celular em casa… Algumas alternativas que parecem viáveis passam pela utilização de ferramentas de mensagem automática com aviso de ausência. Algumas pessoas optam por sair das redes sociais ou deixam de checar sua caixa de email”, comenta Araújo.
Performance. “A nossa sociedade contemporânea está muito ligada ao desempenho. Até nas férias é esperado que se tenha uma performance, curtindo ao máximo, fazendo o máximo de coisas possíveis. Passei férias com minha esposa em um resort e, em um dia, resolvemos fazer um passeio de barco. Lá conhecemos uma outra pessoa que já tinha feito todos os pacotes disponíveis. Ela acreditava que não estaria aproveitando a viagem se tivesse feito tudo. Mas não é bem por aí. Estar em férias depende mais do seu estado de espírito do que de onde está”, critica o psiquiatra Renato Araújo. O tema, aliás, é dissecado pelo filósofo sul coreano Byung-Chul Han, autor de livros como “Sociedade do Cansaço”. Para ele, “vive-se com a angústia de não estar fazendo tudo o que poderia ser feito”.